Um fenómeno semelhante ao recentemente registado na região do Tibete–Nepal, envolvendo um grande deslizamento, a formação de uma barreira natural e posterior rutura com consequências devastadoras, pode acontecer na Madeira. E, segundo o geógrafo Sérgio Lopes, do Laboratório Regional de Engenharia Civil (LREC), um processo deste género já ocorreu na ilha.
A reflexão foi publicada por Sérgio Lopes nas redes sociais. O geógrafo, que é também autor de um estudo sobre aluviões na Madeira, estabelece um paralelismo entre o episódio ocorrido recentemente no Nepal e um acontecimento registado na Madalena do Mar há mais de 90 anos.
Sérgio Lopes explica que o episódio do Tibete–Nepal constitui um exemplo de uma verdadeira “cascata de processos naturais”. Um grande deslizamento de rocha e gelo terá desencadeado um fluxo de detritos que atingiu o fundo de um vale, onde os materiais se acumularam e formaram uma barreira temporária ao escoamento da água.
A eventual rutura dessa barreira terá provocado uma cheia rápida, com elevada capacidade de transporte de sedimentos e grande poder destrutivo.
Na Madeira, aconteceu na Madalena do Mar
Na madrugada de 16 para 17 de agosto de 1932, um enorme movimento de vertente atingiu a margem esquerda da Ribeira da Madalena do Mar.
A massa mobilizada, estimada em cerca de 20 milhões de metros cúbicos, obstruiu completamente a ribeira, criando uma verdadeira barragem natural. As marcas deste deslizamento continuam ainda hoje visíveis na paisagem, nomeadamente na cicatriz deixada na vertente e no relevo associado aos materiais mobilizados, a montante da Estrada Regional 222.
O primeiro episódio grave ocorreu a 30 de janeiro de 1933. Na sequência de um período de precipitação prolongada e intensa, o aumento do caudal e a erosão provocada pela água levaram ao arrastamento de parte dos materiais que bloqueavam a ribeira.
A cheia provocou elevados prejuízos materiais e causou uma vítima mortal.
Contudo, a barreira natural permaneceu no vale durante vários anos.
Rutura em 1939 provocou uma das maiores aluviões da Madalena do Mar
A 30 de dezembro de 1939, após um novo episódio de chuva intensa, a acumulação de água e a erosão acabaram por provocar a rutura da barreira.
A libertação súbita da água, associada ao elevado caudal da ribeira, incorporou grandes quantidades de sedimentos e blocos rochosos, desencadeando uma das maiores e mais destrutivas aluviões da história da Madalena do Mar.
O episódio provocou quatro mortos e deixou a localidade praticamente destruída.
Para Sérgio Lopes, este acontecimento histórico demonstra que, num território montanhoso como a Madeira, um deslizamento de grandes dimensões pode desencadear uma sequência de processos naturais, transformando uma cheia numa situação de extrema perigosidade.
A fotografia que acompanha a publicação nas redes sociais mostra o sector do vale após a rutura da barreira, em 30 de dezembro de 1939, sendo ainda visível parte do material resultante do deslizamento ocorrido em 1932. A imagem pertence à Coleção do Museu de Fotografia da Madeira – Vicentes.
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