António de Abreu: o navegador madeirense que abriu caminho às ilhas das especiarias — e a atual tensão no Estreito de Ormuz
Nascido na ilha da Madeira em 1480, António de Abreu destacou-se como um dos grandes navegadores e guerreiros portugueses do século XVI, desempenhando um papel decisivo na expansão marítima portuguesa no Oriente.
Ao serviço de Afonso de Albuquerque, participou nas conquistas de Ormuz, em 1507, e de Malaca, em 1511, duas das mais importantes vitórias militares portuguesas no Índico e no Sudeste Asiático.
A tomada de Ormuz permitiu aos portugueses controlar uma das mais importantes rotas comerciais marítimas do mundo. Situado à entrada do Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz era então essencial para o comércio entre a Ásia, a Pérsia e a Europa — importância estratégica que mantém até aos dias de hoje.
Na conquista de Malaca, António de Abreu teve um papel determinante. O madeirense capitaneou o junco chinês que transportou os primeiros elementos do exército português a desembarcar na cidade, permitindo consolidar a ofensiva que levaria à conquista definitiva do território pelos portugueses.
Apesar do sucesso militar, António de Abreu foi gravemente ferido durante os combates, sofrendo lesões profundas no rosto e perdendo parte da dentição e um pedaço da língua. Ainda assim, recusou retirar-se da vida militar. Impressionado pela sua coragem e experiência, Afonso de Albuquerque confiou-lhe o comando de uma esquadra composta por três navios e enviou-o numa missão histórica: alcançar as lendárias “ilhas das especiarias”.
A expedição portuguesa rumou às Molucas, região extremamente disputada entre as coroas portuguesa e espanhola por se situar próxima do limite definido pelo Tratado de Tordesilhas. António de Abreu chegou às ilhas de Banda e a Ternate em 1512, tornando-se um dos primeiros europeus a alcançar aquela região do Oriente.
Nas ilhas Banda, centro mundial do comércio de especiarias, os portugueses carregaram os porões dos navios com sacos de cravinho e noz-moscada, produtos de enorme valor comercial na Europa do século XVI. O navegador madeirense regressaria depois à sua base navegando por Amboina, consolidando uma das mais importantes rotas marítimas portuguesas no Oriente.
Ao longo dos anos, vários historiadores levantaram ainda a hipótese de António de Abreu ter sido o primeiro europeu a avistar a Austrália, cerca de um século antes da chegada oficial dos navegadores holandeses ao continente. No entanto, apesar das teorias e indícios históricos, não existe qualquer registo documental que confirme oficialmente essa possibilidade.
Estreito de Ormuz continua no centro da tensão mundial
Mais de cinco séculos depois da presença portuguesa em Ormuz, o estreito permanece uma das zonas mais sensíveis da geopolítica internacional. Localizado entre o Irão e a Península Arábica, o corredor marítimo continua vital para o transporte global de petróleo e gás natural.
Nos últimos tempos, o agravamento das tensões entre o Irão, os Estados Unidos e vários aliados ocidentais voltou a colocar o Estreito de Ormuz sob forte pressão internacional. Ameaças de bloqueio naval, ataques a petroleiros e operações militares na região têm aumentado os receios sobre a segurança da navegação naquela passagem estratégica.
Atualmente, uma parte significativa do petróleo mundial continua a atravessar diariamente o Estreito de Ormuz, tornando qualquer instabilidade na região numa preocupação económica e política à escala global.
A história de António de Abreu demonstra assim como as rotas marítimas exploradas pelos navegadores portugueses no século XVI continuam, ainda hoje, a desempenhar um papel central no equilíbrio do mundo contemporâneo.







