Mau-Olhado existe? A tradição madeirense cura com "orações" Imagem Ilustrativa (IA)
  • DATE 30/04/2026

Na Madeira antiga, quando a medicina oficial raramente chegava aos sítios mais isolados, eram as curandeiras que muitos procuravam em busca de alívio, proteção e esperança. Entre os males mais temidos estava o mau-olhado, crença popular segundo a qual uma pessoa ou animal podia ser afetado pela inveja, por pensamentos negativos ou por desejos ruins lançados com ou sem intenção.

Segundo a tradição, este mal podia manifestar-se através de cansaço repentino, dores sem explicação, tristeza, nervosismo, azar constante ou fraqueza nos animais domésticos.


Quem Podia Lançar o Mau-Olhado?

Dizia-se que qualquer pessoa podia lançar o mau-olhado, mesmo sem querer. Bastava olhar com inveja, desejar o que o outro possuía ou admirar em excesso sem proteção espiritual.

Na sabedoria popular madeirense, acreditava-se que a inveja feminina era particularmente forte. Em contrapartida, certos homens eram considerados naturalmente protegidos, sobretudo os que possuíam no peito uma cruz formada pelo cabelo.


Como a Curandeira Descobria o Mal

Para saber se o problema tinha origem espiritual, a curandeira utilizava um ritual simples e antigo.

Colocava água numa chávena ou copo e deixava cair uma gota de azeite. Se o azeite se espalhasse à superfície, era sinal de que a pessoa estava acometida pelo mau-olhado.

Confirmado o mal, começava então o ritual de cura.


O Ritual de Cura

Munida de um ramo verde de alecrim — planta sagrada e protetora na tradição popular — ou de folhas de louro dispostas em cruz, a curandeira fazia o sinal da cruz sobre a pessoa doente enquanto recitava orações transmitidas ao longo de gerações.

O doente permanecia sentado, muitas vezes de costas para a curandeira, para que a bênção cobrisse todo o corpo.

As rezas eram repetidas em números ímpares: três, cinco ou nove vezes, até que o azeite deixasse de se espalhar.

Durante a cura, acreditava-se que a curandeira absorvia parte do mal, sentindo bocejos, enjoos ou mal-estar súbito.


Oração Tradicional

"Assim te curo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (nome da pessoa), se tens olhado atravessado, praguejado ou mal desejado.

Se te deram no comer, no beber, no vestir, no calçar, no teu trabalho, no teu dinheiro, na tua casa, na tua família e em tudo o que te pertence.

E deitar no perigo do mar, onde não haja galo nem galinha a cantar.

Em nome de Deus e de São Silvestre, por onde este mal entrou, por lá saia.
Em louvor de Deus e de São Gomes, por este mal que entrou, por lá torne.

Casa agada e varrida sobre a poeira, por onde este mal entrou por lá saia.

Dois deram três que são o Pai, o Filho e o Espírito Santo."


Oração Popular Madeirense

"Eu te curo, em nome de Deus e da Virgem Maria e das três pessoas da Santíssima Trindade.

De olhado invejante não invejado, se te deram no comer, no beber, na gordura, na formosura, no andar e no trabalhar.

Eu te curo para tirar este mal do teu corpo, da tua carne, dos teus ossos e das tuas veias.

Em nome de Deus, da Santíssima Trindade, por Jesus Cristo, baptizado em Jordão, verdadeiramente corre este mal."


Como Terminava a Cura

No final do ritual, a água e o azeite eram lançados à rua para afastar o mal. Em algumas localidades, observava-se quem pisaria primeiro aquela mistura, pois acreditava-se que isso revelaria o sexo da pessoa que tinha lançado o mau-olhado.

Quando a cura era feita em casa, colocava-se sal grosso nos cantos das divisões e desenhava-se uma cruz à entrada da porta para reforçar a proteção.


As Curandeiras e os Animais

As curandeiras não tratavam apenas pessoas. Também eram chamadas para curar porcos, vacas, galinhas e outros animais que adoeciam sem explicação aparente.

Nos palheiros ou chiqueiros, aproximavam-se dos animais, benzendo-os e aplicando os mesmos rituais usados nas pessoas.


Uma Herança Cultural da Madeira

Mais do que superstição, estas práticas representam hoje uma memória viva da cultura popular madeirense. São testemunhos de um tempo em que a fé, a natureza e o saber antigo caminhavam lado a lado.

As rezas contra o mau-olhado continuam a despertar curiosidade e respeito, preservando a identidade espiritual e cultural da Madeira de outros tempos.

Lido 191 vezes
Tagged under:
Sem mais artigos
No More Articles

Visitantes

33859376
Hoje9033

Cantinho da Madeira
Registo na ERC: 700067
Contacto: +351 933 463 095

ESTAMOS MAIS PERTO DE TI!

DESCARREGA AS NOSSAS APP´S

Top
Aviso! Este site utiliza cookies para melhorar e personalizar a navegação dos utilizadores. More details…