O “Mal de Aberto”: Tradições de Cura Popular da Madeira O “Mal de Aberto”: Tradições de Cura Popular da Madeira Foto ilustrativa (IA)
  • DATE 03/05/2026

Uma das tradições mais marcantes da Madeira está ligada à medicina popular e às práticas de cura tradicionais, profundamente enraizadas no quotidiano das comunidades rurais. De acordo com o Museu Etnográfico da Madeira, estas práticas desenvolveram-se sobretudo devido ao isolamento geográfico das populações e à escassez de acesso a cuidados médicos formais. Nesse contexto, as curandeiras desempenhavam um papel essencial, sendo procuradas para tratar não só problemas físicos, mas também males de natureza espiritual.

Os métodos utilizados combinavam saberes naturais e crenças religiosas. Eram frequentes o uso de plantas medicinais, massagens e ventosas, mas também rituais como rezas, benzeduras e esconjuros, nos quais se invocava a ajuda divina para alcançar a cura. Esta combinação de práticas reflete uma herança cultural rica, transmitida oralmente ao longo de gerações e ainda hoje recordada como parte importante da identidade madeirense.

Um exemplo conhecido é o chamado “mal de aberto”, expressão popular que podia designar desde uma entorse ou dor muscular até situações mais graves, como fraturas, que dificultavam os movimentos.

Para tratar este mal, recorria-se a um ritual simbólico e espiritual: a curandeira embrulhava uma tesoura e um pente num pano e, com uma agulha e linha, simulava coser esse pano enquanto fazia o sinal da cruz sobre a zona afetada.

Durante o ritual, era recitada uma oração específica, em forma de diálogo entre curandeira e doente, repetida nove vezes e ao longo de nove dias consecutivos:

Curandeira: O que coso?
Doente: Carne quebrada, aberta, torcida, desmentida, desconjuntada ou apartada.
Curandeira: Mesmo isso aqui eu coso com o nome de Deus, da Virgem Maria e das três pessoas da Santíssima Trindade que Deus te cure e Deus te sare e Deus te valha a tua necessidade.
Como coso deste belo em vão soldes com o nome de São João.
Como coso deste belo em fofo soldes a carne com o osso.
Como coso deste belo em cruz soldes com o nome de Jesus.”

Esta oração, profundamente simbólica, reforçava a crença na intervenção divina e no poder da palavra como instrumento de cura. A repetição ao longo de nove dias dava ainda maior força espiritual ao ritual, numa prática onde fé, tradição e conhecimento popular se entrelaçam.

Hoje, estas práticas são valorizadas sobretudo como património cultural, testemunhando a forma como as comunidades madeirenses enfrentavam as dificuldades do passado. Para quem visita a ilha ou se interessa pela sua história, conhecer estas tradições é uma forma de compreender melhor a identidade local e a riqueza do seu legado imaterial.

Fonte: Museu Etnográfico da Madeira

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