Os métodos utilizados combinavam saberes naturais e crenças religiosas. Eram frequentes o uso de plantas medicinais, massagens e ventosas, mas também rituais como rezas, benzeduras e esconjuros, nos quais se invocava a ajuda divina para alcançar a cura. Esta combinação de práticas reflete uma herança cultural rica, transmitida oralmente ao longo de gerações e ainda hoje recordada como parte importante da identidade madeirense.
Um exemplo conhecido é o chamado “mal de aberto”, expressão popular que podia designar desde uma entorse ou dor muscular até situações mais graves, como fraturas, que dificultavam os movimentos.
Para tratar este mal, recorria-se a um ritual simbólico e espiritual: a curandeira embrulhava uma tesoura e um pente num pano e, com uma agulha e linha, simulava coser esse pano enquanto fazia o sinal da cruz sobre a zona afetada.
Durante o ritual, era recitada uma oração específica, em forma de diálogo entre curandeira e doente, repetida nove vezes e ao longo de nove dias consecutivos:
“Curandeira: O que coso?
Doente: Carne quebrada, aberta, torcida, desmentida, desconjuntada ou apartada.
Curandeira: Mesmo isso aqui eu coso com o nome de Deus, da Virgem Maria e das três pessoas da Santíssima Trindade que Deus te cure e Deus te sare e Deus te valha a tua necessidade.
Como coso deste belo em vão soldes com o nome de São João.
Como coso deste belo em fofo soldes a carne com o osso.
Como coso deste belo em cruz soldes com o nome de Jesus.”
Esta oração, profundamente simbólica, reforçava a crença na intervenção divina e no poder da palavra como instrumento de cura. A repetição ao longo de nove dias dava ainda maior força espiritual ao ritual, numa prática onde fé, tradição e conhecimento popular se entrelaçam.
Hoje, estas práticas são valorizadas sobretudo como património cultural, testemunhando a forma como as comunidades madeirenses enfrentavam as dificuldades do passado. Para quem visita a ilha ou se interessa pela sua história, conhecer estas tradições é uma forma de compreender melhor a identidade local e a riqueza do seu legado imaterial.
Fonte: Museu Etnográfico da Madeira






