Um fenómeno raro voltou a surpreender os céus da Madeira na madrugada de ontem para hoje. Entre as 23h00 e as 00h40, auroras boreais foram fotografadas a partir do Pico do Areeiro, um acontecimento excecional tendo em conta a latitude da ilha.
O registo foi feito pelo fotógrafo madeirense Diogo Gualter, que descreveu a noite como “mais uma daquelas”, recordando que fenómenos semelhantes já tinham sido observados em maio e outubro de 2024. “2026 começa em grande”, escreveu, sublinhando o caráter extraordinário das auroras captadas “no céu da nossa Ilha”.
As auroras boreais são habitualmente visíveis em regiões próximas do Círculo Polar Ártico, como a Escandinávia, a Islândia ou o Canadá. A sua observação numa latitude tão baixa como a da Madeira, cerca de 32 graus norte, está associada a episódios excecionais de atividade solar intensa. Segundo o fotógrafo, nesta noite a atividade atingiu o nível G4, muito próximo do máximo G5, numa escala que vai de 1 a 5.

De acordo com a explicação partilhada por Diogo Gualter, o fenómeno teve origem numa tempestade geomagnética. Explosões solares particularmente energéticas, como as ejeções de massa coronal, libertam grandes quantidades de partículas carregadas que podem atingir a Terra. “Ao colidirem com a magnetosfera terrestre, essas partículas são canalizadas ao longo das linhas do campo magnético em direção às regiões polares”, explica. O contacto com gases da alta atmosfera, sobretudo oxigénio e azoto, liberta energia sob a forma de luz, dando origem às auroras.
Em situações de atividade geomagnética muito intensa, o chamado oval auroral expande-se para latitudes mais baixas. É nesses momentos que regiões fora do habitual, como várias zonas da Europa e, neste caso, a Madeira, conseguem observar o fenómeno, ainda que de forma ténue e predominantemente avermelhada.
Essa coloração vermelha e a proximidade ao horizonte também têm explicação científica. Ao contrário das auroras verdes mais comuns em latitudes elevadas, as observadas a partir da ilha surgem como arcos ou manchas difusas avermelhadas. “Esta cor está associada à emissão de oxigénio a grandes altitudes, acima dos 200 quilómetros”, refere o fotógrafo, tratando-se de fenómenos conhecidos como Stable Auroral Red Arcs (SAR), típicos de tempestades geomagnéticas fortes.

Diogo Gualter salienta ainda que estas auroras são, muitas vezes, invisíveis a olho nu, mesmo em locais com pouca poluição luminosa. A sua deteção é favorecida por céus escuros, altitude elevada e registos fotográficos de longa exposição — condições que a Madeira, especialmente nas zonas montanhosas como o Pico do Areeiro, consegue oferecer e que permitiram eternizar mais uma noite rara no céu da ilha.
Pode consultar mais registos no perfil pessoal do fotógrafo madeirense Diogo Gualter.
Créditos: Diogo Gualter








