O historiador Emanuel Gaspar manifestou publicamente a sua profunda indignação face à venda da antiga residência e do jardim da consagrada artista plástica Lourdes de Castro, na Madeira, classificando a decisão como um “insulto à memória” da criadora e uma perda irreparável para o património cultural da região e do país.
Em declarações críticas sobre o processo, o investigador sublinhou que existem vias alternativas à transação do imóvel e recordou que a vontade expressa da artista passava pela preservação do espaço. A casa e o respetivo jardim deveriam funcionar como um polo dedicado ao estudo da obra de Lourdes de Castro e do seu marido, o também artista Manuel Zimbro, acolhendo em simultâneo residências artísticas.
“Quem herdou este património parece não compreender nem reconhecer a importância da herança que lhe foi transmitida — uma herança que não foi simplesmente dada, mas construída ao longo de uma vida inteira de criação, dedicação e entrega à arte”, lamentou Gaspar, acrescentando que a decisão representa o apagamento de uma “memória física verdadeiramente excecional” que a própria artista considerava ser a sua “última tela”.
O historiador recordou ainda o contexto político em torno da salvaguarda do espaço. Em junho de 2025, foi submetido à Assembleia Legislativa da Madeira um projeto de resolução que visava a classificação da habitação como bem de interesse público. A iniciativa acabou por ser chumbada com os votos contra de PSD, CDS, IL e Chega, recolhendo apenas os votos favoráveis do PS e do JPP.
“Estou profundamente triste e chocado. Não apenas pela possível perda de um espaço, mas pelo que ela representa: a perda de uma parte insubstituível da memória e do património cultural da Madeira”, concluiu Emanuel Gaspar.
Antiga casa e refúgio de Lourdes de Castro no Caniço está à venda por 4,1 milhões de euros no Idealista
A icónica residência da artista plástica Lourdes de Castro e do seu companheiro, o arquiteto Manuel Zimbro, localizada no Caniço, na Madeira, encontra-se atualmente à venda no portal Idealista pelo valor de 4.100.000 €. O imóvel, que vai muito além de um simples lar, é amplamente reconhecido como um testemunho vivo da visão artística da criadora.

Projetada pelo casal, a propriedade oferece vista panorâmica sobre o mar e as Ilhas Desertas, integrando de forma simbiótica a habitação e um vasto jardim. Lourdes de Castro considerava o espaço exterior a sua “última obra de arte”, cultivando-o com a mesma dedicação que aplicava às suas criações plásticas. Entre os elementos mais emblemáticos do espaço destacavam-se duas grandes árvores plantadas pela artista, a quem chamava afetuosamente de “meus gladiadores” e que funcionavam como guardiãs simbólicas da casa.
A ligação profunda da artista à natureza e à vida insular marcou profundamente o seu trajeto, levando diversos setores culturais a defender que a propriedade deveria ser preservada como um museu e o jardim mantido como homenagem, num paralelo com os jardins de Monet em Giverny. No entanto, a realidade do mercado imobiliário apresenta agora um rumo diferente para o espaço.

De acordo com o anúncio divulgado na plataforma imobiliária, a magnífica propriedade estende-se por quase 13.000 metros quadrados de terreno e conta com uma área construída de cerca de 1.500 metros quadrados. A descrição comercial destaca não só a possibilidade de reabilitação da moradia original, mas também o seu elevado potencial construtivo e capacidade expansiva, apontando o local como uma oportunidade para o desenvolvimento de empreendimentos turísticos ou novos projetos residenciais na região.
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