O cónego Marcos Gonçalves defende uma reflexão sobre a forma como são organizadas e financiadas as festas religiosas e os arraiais das paróquias, alertando para a necessidade de garantir que os valores angariados deixem também benefícios concretos para as comunidades que promovem as celebrações.
Numa reflexão publicada na página oficial da Diocese do Funchal, o sacerdote sublinha que as festas dos Santos Padroeiros, de Nossa Senhora e do Santíssimo Sacramento têm, antes de tudo, um sentido religioso e espiritual. São momentos de celebração da fé, de encontro com Cristo, de valorização do testemunho dos santos e de fortalecimento da vida comunitária.
Mas os arraiais são também, segundo o cónego Marcos Gonçalves, importantes instrumentos de participação e de serviço à paróquia. A organização envolve confrarias, grupos paroquiais, voluntários, coros e muitos outros fiéis, que colocam os seus dons ao serviço da comunidade.
É, contudo, na gestão dos recursos financeiros que a reflexão assume um tom particularmente crítico.
O sacerdote considera legítimo organizar festas bonitas, dignas e capazes de atrair muitas pessoas, mas questiona a realização de despesas excessivas quando, no final, pouco ou nada fica para a própria paróquia.
“Não é, porém, razoável gastar fundos exagerados numa festa e, depois, nada ficar para a igreja paroquial e para a sua manutenção”, escreve.
A questão é colocada de forma direta: “De que vale fazer uma grande festa, gastar tudo e, no final, nada ficar para a comunidade que a promoveu?”
Para o cónego Marcos Gonçalves, deveria existir um entendimento que permitisse destinar uma percentagem das receitas das festas às necessidades da paróquia. Esse dinheiro poderia ser utilizado, por exemplo, para pintar uma parede, restaurar uma imagem, reparar os sinos, conservar o património ou responder a necessidades pastorais e sociais.
A mesma preocupação é estendida às visitas do Espírito Santo. Os valores recolhidos não deveriam servir exclusivamente para suportar as despesas do arraial, devendo também ter em conta as necessidades da paróquia, a caridade e a missão de evangelização.
A reflexão coloca, assim, uma questão central sobre a finalidade do dinheiro angariado nas festas religiosas: a celebração não deve terminar quando acabam as luzes e a música do arraial; deve deixar frutos na comunidade.
Nesse sentido, a gestão financeira surge associada à própria missão da Igreja. As receitas das festas podem contribuir para a conservação dos edifícios e do património religioso, para a ação social e para o trabalho pastoral. O objetivo não será retirar às festas a sua dimensão popular e de convívio, mas garantir que os recursos obtidos sejam utilizados em benefício da comunidade.
O cónego Marcos Gonçalves defende igualmente maior transparência na organização e prestação de contas das festas. O pároco, enquanto responsável pela paróquia, deve trabalhar em colaboração com confrarias, comissões, festeiros e restantes responsáveis, garantindo que as celebrações mantenham a sua identidade religiosa e que exista uma gestão responsável.
A reflexão aborda ainda outras questões, como a utilização de espaços públicos, a definição das responsabilidades entre paróquias e autarquias, a organização das procissões, o cuidado com as confrarias e a necessidade de impedir que as festas religiosas sejam instrumentalizadas para fins políticos ou partidários.
Apesar dos alertas, o sacerdote não propõe o fim das tradições nem a redução da dimensão festiva dos arraiais. Pelo contrário, considera que é necessário “purificar” as festas, recuperando o seu verdadeiro sentido.
A conclusão resume a ideia central da reflexão: uma festa religiosa deve deixar mais do que receitas ou memórias de um arraial. Quando as luzes se apagam, deve permanecer “uma comunidade mais unida, mais participativa, mais disponível para servir e mais próxima de Deus”.
É nesse equilíbrio entre fé, convívio, participação e responsabilidade na utilização dos recursos que, para o cónego Marcos Gonçalves, as festas paroquiais podem cumprir verdadeiramente a sua missão.
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