Zé Francisco, vocalista e líder do grupo, recordou o início em 1996, a dívida de gratidão aos emigrantes na Venezuela e os planos para um novo original, dedicado ao pai, em entrevista à Rádio Cantinho da Madeira
A Banda Fixe, um dos nomes habituais dos arraiais madeirenses, celebra este ano três décadas de carreira. Em entrevista ao programa “Manhãs do Kiko”, apresentado por Kiko Pires a partir de Jersey para a Rádio Cantinho da Madeira, o vocalista Zé Francisco (José Francisco Abreu) fez o balanço do percurso e falou do que mudou nas festas populares da ilha.
Do rancho para o palco
O grupo nasceu em janeiro de 1996, quando um conjunto de jovens vindos de um grupo folclórico começou a ensaiar. A estreia aconteceu em junho desse ano, na Festa do Senhor, no Cristo Rei. O nome vem da juventude dos músicos, que tinham entre 14 e 18 anos. “Éramos adolescentes”, explicou Zé Francisco, recordando que na altura “havia muitíssimo” a moda dos grupos juvenis.
A estreia quase não aconteceu. Foi um familiar emigrante na África do Sul quem os incentivou. “Vocês vão lá tocar”, disse-lhes, perante as dúvidas dos jovens músicos.
A “dívida de gratidão” aos emigrantes
Zé Francisco recordou que, quando a banda surgiu, a maioria dos festeiros dos arraiais vinha da Venezuela ou da África do Sul. “A Banda Fixe, tal como os outros grupos, tem uma dívida de gratidão com os imigrantes da Venezuela”, afirmou, deixando “um grande abraço” à comunidade, que atravessa “uma situação muito difícil”.
No final da conversa, dirigiu-se aos madeirenses espalhados pelo mundo: “Ser emigrante não é fácil.” Desejou que a banda tenha contribuído, “nem que seja um bocadinho”, para que as férias na ilha sejam mais agradáveis. “Em cada canto do mundo há sempre um madeirense”, rematou.
Arraiais mudaram: “Quer a música de arraial”
Questionado sobre as diferenças nas festas de hoje, o músico não tem dúvidas. Quando começaram, tocavam sobretudo versões de música inglesa, algo que “hoje em dia já não dá”. Agora, diz, “98, 99%” do repertório de arraial é pimba. “Hoje em dia, o público que sai de casa em modo arraial quer a música de arraial.”
Para o líder da banda, a adaptação é uma condição de sobrevivência: “Um grupo de arraiais sobrevive se se adaptar ao público.” E acrescentou que o trabalho do músico de arraial é diferente do de um concerto de bilhete pago: “O nosso trabalho é pô-los a dançar.”
Originais: da Poncha ao “Coração de Mãe”
A banda lançou em 2021, nos 25 anos, um CD de originais, disponível nas plataformas digitais. Entre os temas está “Poncha”, que Zé Francisco diz ser “das músicas mais identificadas em posts de Instagram na Madeira”. Há ainda temas de humor, herança do projeto Cachaços da Junta, como “Chupa-se a Cana”.
O tema mais pessoal é “Coração de Mãe”, escrito depois da morte da mãe, em 2018. Ao vivo “não funciona muito, mas na rádio funciona”, contou, garantindo que os ouvintes o pedem com frequência nas rádios da ilha.
Zé Francisco revelou que o pai morreu em 2025 e que já tem uma canção pensada em sua homenagem. “Não é por obrigação”, sublinhou. “Tenho um amor enorme pelos meus pais, devo-lhes tudo.” A gravação deverá acontecer “em 2027 ou, se calhar, em 2028”, quando houver tempo para o grupo se sentar.
Humildade e humor em palco
Com 50 a 60 espetáculos por ano, a banda assume como imagem de marca “a simplicidade e a humildade”. O humor também faz parte do espetáculo. “As pessoas saem de casa para beber um copo, descontrair e divertir-se. Se não souberem o nome do conjunto, mas se divertirem, para mim chega”, disse.
Há uma música que nunca falta: um concerto da Banda Fixe termina sempre com o Bailinho da Madeira.
Memórias de palco
Entre as histórias partilhadas, Zé Francisco recordou o concerto de 2013 em Londres, no Dia de Portugal, diante de emigrantes, e a estreia em São Roque, no Funchal, que o surpreendeu pela enchente. Contou também o episódio numa atuação na Tabúa, em que o palco de madeira cedeu: “Caí, fiquei preso pelos cotovelos… Mas o espetáculo tem de continuar. Subi e continuei a cantar. No intervalo é que taparam o buraco.”
A festa dos 30 anos, nas festas do concelho, reuniu a formação original em palco. “Foi, acima de tudo, nostalgia”, disse, lembrando os pais e o filho, que já não estão presentes.
Um conselho ao jovem de 1996
Se pudesse falar ao rapaz que subiu ao palco do Cristo Rei em 1996, Zé Francisco diria apenas: “Aproveita o dia a dia.” Admitiu que houve “momentos bons” que não soube aproveitar. “Porque às vezes a gente pensa que isto é bom, mas que vai melhorar. E melhora, mas o melhor nem sempre é igual ao que foi, porque os tempos são outros.”
Agenda
Em outubro, a banda atua no Funchal, em Santana e na festa do Livramento, na Ponta do Sol. Em novembro estará no São Martinho, no Funchal, “o maior São Martinho da Madeira”. A música da banda está no Spotify, YouTube e Amazon Music, mas o convite do vocalista é para o ao vivo: “Se tiverem oportunidade, venham à Madeira ver um concerto da Banda Fixe. Vão gostar bastante.”
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