A artista portuguesa mais ouvida no Spotify em 2025 falou do álbum “Hormonal”, da ligação à Madeira e dos concertos de 2027 com sexteto de cordas, em entrevista à Rádio Cantinho da Madeira
Aos 27 anos, Bárbara Tinoco conta com três álbuns de originais, salas esgotadas e o título de artista portuguesa mais ouvida no Spotify em 2025. Foi a convidada da semana do programa “Manhãs do Kiko”, apresentado por Kiko Pires a partir de Jersey para a Rádio Cantinho da Madeira.
A Madeira e o “Meo Sons do Mar”
A cantora atuou no Funchal a 4 de setembro, no festival Meo Sons do Mar, que considera “um dos festivais que mais gosto de ir tocar”. Foi a segunda vez que o fez. Para Bárbara Tinoco, há algo de “mágico” na ilha: “De qualquer ponto que estejas da ilha, vês sempre o mar.” Aos madeirenses, atribui uma felicidade própria: “As pessoas na ilha andam contentes e os concertos também são contentes.”
A ligação à Madeira vai além dos palcos. O companheiro, Feodor, passou parte da adolescência na ilha depois de sair da Rússia e “aprendeu a falar português com sotaque madeirense”. Quanto ao cavaquinho com que cresceu na loja de instrumentos da família, a cantora foi surpreendida pela referência às raízes madeirenses do ukulele e lembrou-se do instrumento madeirense equivalente: “É o rajão.”
Comunidades portuguesas no estrangeiro
Questionada sobre apostar mais no estrangeiro e nas comunidades portuguesas, foi franca: “Se gostarem de me ouvir, eu vou de muito bom grado, mas na verdade eu odeio viajar.” Em novembro atua na Suíça, numa experiência que descreve como “quase uma primeira”, e confessa que o entusiasmo é “contido”: “Sou muito, muito, muito medricas para viajar para fora do país.”
Acredita, no entanto, que cantar para quem vive longe tem um peso especial. “Aquilo que temos à mão todos os dias deixa de ser especial. Quando não temos à mão, as pessoas dão outro valor.” Para quem está fora e não pode ouvir “a sua língua, as suas canções”, a música “tem um significado diferente”.
“Hormonal”: a felicidade como desafio
“Hormonal”, terceiro álbum, saiu em maio. Durante anos, Bárbara Tinoco escreveu sobre relações que doíam e desilusões. Agora, diz nunca ter sido tão feliz, sobretudo desde o nascimento da filha. A felicidade trouxe “sem dúvida um novo desafio criativo”.
O tema de abertura, “Sangue na Guelra”, fala disso mesmo. “Ser mulher e ser mãe também vem com algumas dores sobre as quais dá para escrever”, explicou, acrescentando que a canção quer também “desmistificar”. Sobre a frase central do tema, “não acredito que esta é mesmo a minha vida”, diz que a vida artística “é uma sorte e é um privilégio”. Quando era pequena, não conhecia ninguém que vivesse da música. “Das primeiras perguntas que fiz ao meu manager foi se as pessoas viviam mesmo da música.”
Todas as noites, entrar em palco continua a surpreendê-la: “Há pessoas que saíram de casa naquela noite, arranjaram a vida delas, se calhar atrasaram a hora de deitar os filhos… Estão ali e estamos a viver aquilo todos em conjunto.”
Muitas canções do disco misturam “as pequenas dores da maternidade com as tantas alegrias”. Podem não ser “os maiores êxitos”, reconhece, mas são canções que “as outras mães podem fazer delas banda sonora e companhia nesta fase da maternidade, que por vezes pode ser solitária”.
“Amor no Dicionário”
Uma das letras de que mais gosta acompanha as fases da gravidez e os primeiros dias do bebé. Segundo a autora, não a poderia ter escrito antes: “Só entendemos melhor as coisas se passarmos por elas. A canção é mais verdade porque eu vivi.”
Do palco ao teatro
Os concertos de Bárbara Tinoco são pensados para serem vistos, e não apenas ouvidos. “Há uma pequenina encenadora dentro de mim”, admite. “Descobri ao longo destes anos que gosto imenso de montar espetáculos, criar conceito e explorar o conceito, e que o palco seja uma extensão do disco.” O objetivo é que saiam do concerto “fãs, ou pais que foram obrigados a ir, ou pessoas que nem gostam muito” a dizer: “Gostei do concerto, não estava à espera.”
Em 2027, deixa as grandes salas por auditórios mais pequenos, acompanhada por um sexteto de cordas. As canções “vão soar todas diferentes” e ter “a magnitude das cordas, a beleza, a tristeza e a alegria das cordas”. Os arranjos estão prontos e os ensaios arrancam em novembro. Será, nas suas palavras, um espetáculo “semi-teatral”: “É teatro que não quis ser teatro.” A cantora quer ainda levar aos mais novos instrumentos que “já não é assim tão comum” verem ao vivo.
Os primeiros passos
Antes de “The Voice”, Bárbara Tinoco participou em 2017 numa masterclass da Antena 1 orientada por João Gil, que lhe deu um conselho decisivo: “Continuar a escrever canções e a lançar as minhas coisas, em português.” Para a cantora, “o incentivo certo na altura certa” pode mudar decisões. “Espero um dia ser essa pessoa para alguém.”
Aos 18 e 19 anos, cantava no Jam Club, no Bairro Alto, ainda desconhecida. A experiência foi uma escola: “Tocava para um público 97% alcoolizado, que é o melhor público do mundo. Gostam de todas as canções desde que as conheçam, e quando não conhecem, às vezes inventam.” Aprendeu aí a ser “muito boa a fazer concertos pequeninos”, o que a ajudou depois nos grandes palcos.
O Globo de Ouro e os três álbuns
O Globo de Ouro de melhor intérprete, em 2021, foi o momento em que sentiu fazer “parte” da música portuguesa. “No início as coisas são tão rápidas que não percebes se vai ser uma coisa que aparece e desaparece. Ganhar o Globo ajudou-me a perceber que já havia canções minhas que marcaram, que as pessoas se vão lembrar.”
Sobre o primeiro álbum, “Bárbara”, diz ver “o início, a experiência, a aprendizagem, a tentativa e o erro”, e garante que ama aquelas canções: “Não são melhores nem piores, são diferentes.” O segundo, “Bichinho”, é dedicado ao companheiro, e o terceiro, “Hormonal”, à filha. Quanto a um quarto disco, é cedo: “É preciso viver para fazer um disco.”
Para fechar, a “Tragédia”
A pedido do entrevistador, recitou o refrão de “Tragédia”, canção menos conhecida de que gosta por misturar “o profundo e o mundano”: “Tragédia é escrever canções com poucas emoções, quem diz viver paixões com poucas ilusões.”
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